Já pensou em empreender fora do Brasil? Confira dicas de especialistas

July 29, 2018

Por Neyrilene Costa*

 

Link original: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/eu-estudante/tf_carreira/2018/07/29/tf_carreira_interna,698193/ja-pensou-em-empreender-fora-do-brasil-confira-dicas-de-especialistas.shtml

 

Essa opção tem sido cada vez mais usual para brasileiros. Há desde gente que tenha resolvido abrir uma empresa pelas dificuldades de conseguir emprego em uma nação diferente até pessoas que optara por transferir um negócio por desânimo com a crise no cenário nacional. As dificuldades envolvidas são muitas e é preciso investir em muita pesquisa e planejamento antes de apostar nisso

 

Mais de 3 milhões de brasileiros vivem no exterior, dos quais quase metade mora nos Estados Unidos. Oportunidades de estudo e trabalho estão entre as maiores aspirações fora do país. Um terceiro objetivo tem se tornado mais usual para quem deixa o Brasil: empreender.

 

Ser dono de uma empresa envolve muitos desafios e se aventurar em lançar algo lá fora traz grau a mais de dificuldade. A falta de fluência em outro idioma, o desconhecimento da legislação do outro país, o fato de não ser familiarizado com o público consumidor de lá estão entre os obstáculos. Mas nada disso barra as possibilidades de sucesso de quem abraça essa decisão, estuda, corre atrás e, claro, faz um bom planejamento. Os números de declarações de saída definitiva do país passaram de 8.170, em 2011, a 21.236, em 2017, de acordo com a Receita Federal, o que mostra um grande aumento em relação a brasileiros que deixaram o país.

 

As principais razões para a saída são, pela ordem: a violência, a instabilidade econômica e a corrupção. Esse segundo elemento, inclusive, é muito importante para os negócios e, quando a pessoa se muda para uma nação sem esse problema, pode ter mais possibilidades de êxito tendo uma empresa. Os Estados Unidos e a Europa são muito visados por esse motivo. Tanto quem tem uma empresa no Brasil e pretende levá-la ou expandi-la lá fora quanto para quem começará algo do zero, é preciso tomar cuidados antes de fazer as malas e se aventurar. Um requisito essencial é conseguir um visto antes de deixar o país. O documento, emitido pela embaixada ou pelo consulado do país, deve ser pedido com antecedência. Antes disso, porém, é importante pesquisar sobre como são as condições de abertura de empresas no destino e se planejar.

 

De acordo com Carlo Barbieri, presidente do Grupo Oxford, em consultoria brasileira em negócios nos EUA, é fundamental entender se o produto ou serviço que você tem em mente está pronto para se internacionalizar. “É necessário saber se a sua ideia de firma está pronta para o mercado desejado. Esteja consciente de que vai para um lugar com regras, cultura e leis diferentes”, alerta. Leonardo Freitas, sócio-fundador da Hayman-Woodward, empresa de assessoria em desenvolvimento de negócios, é relevante, além de conhecer as leis tributárias e trabalhistas do país de destino, estar seguro da capacidade técnica, financeira e de infraestrutura adequada de negócio. 

 

"Não ter fluência no idioma do país limita ou dificulta bastante o potencial de crescimento" - Jorge Botrel, administrador de empresas e especialista em estratégia alinhada a vendas pela Universidade Harvard

 

A legislação norte-americana não é considerada um desafio, pois, em muitos países, são mais simples que as normas brasileiras. Assim, as maiores barreiras se tornam a língua estrangeira, a dificuldade de planejamento e a falta de uma base de apoio de familiares e amigos que teria na terra natal. Jorge Botrel, especialista em expatriação e sócio da JBJ Partners, empresa especializada em expatriação para os EUA, a fluência no inglês ou outra língua não é tudo, mas é necessária. “Eu não diria que é impossível ter sucesso sem essa habilidade, mas diria também que não tê-la limita ou dificulta bastante o potencial de crescimento. Então, é preciso estudar muito e não só para isso”, afirma.

 

“A maioria dos problemas enfrentados por empreendedores no exterior surge da falta de um planejamento adequado”, observa Leonardo Freitas, formando em produção musical e engenharia de som. Segundo o advogado, sócio-fundador da Loyalty Miami, consultor de negócios e especialista em direito internacional Daniel Toledo, um grande problema nesse sentido é basear-se em “achismos” e, assim, se convencer de que o empreendimento tem tudo para dar certo.  “Mudam o costume, a legislação, as regras locais, o perfil do consumidor, até o clima. Então, é primordial que se busque um profissional experiente para orientá-lo”, diz.

 

Internacionalização

 

Segundo o carioca e também americano naturalizado Leonardo Freitas, a estabilidade e a valorização do negócio são alguns dos atrativos que levam mais pessoas a apostar no empreendedorismo no exterior. 

 Para o administrador Jorge Botrel, além de planejamento, é preciso ter disponibilidade de capital. “Não aconselho começar um processo de internacionalização se a empresa não estiver sólida financeiramente nem tiver plano para adversidades que, com certeza, aparecerão.” Os custos de abrir ou transferir um negócio para outro país variam bastante de acordo com o ramo, o destino, o tamanho, a região...

 

Segundo Daniel Toledo é importante saber no que se está investindo. “Antes de dar qualquer passo, é necessário consultar um advogado para conhecer a legislação de acordo com o produto que se pretende colocar no exterior”, aconselha. Taxas sobre importação e exportação podem ser outra preocupação, já que produtos importados recebem encargos que variam de acordo com o bem adquirido. 

 

No Brasil, órgãos como a Secretaria da Receita Federal, o Banco Central (que coordena e fiscaliza operações de câmbio referente a operações internacionais feitas por empresas brasileiras), além do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) fiscalizam e regulam as relações internacionais. Consultar esses órgãos pode ajudar a entender como funciona a legislação do Brasil e lá fora, o que facilitará na abertura de uma empresa.

 

Regularize! / Passo a passo para regularizar negócio no exterior do ponto de vista do negócio:

» Ao abrir a empresa, leve em conta o tipo societário e a questão tributária do país

» Faça um acordo de acionistas, determinando direitos e deveres de cada um

» Considerando que as regras e direitos em outras nações são bem diferentes das normas brasileiras, faça o registro da marca e, se for o caso, da patente

» Contrate um contador

 

Do ponto de vista do produto ou serviço:

» Avalie se o produto ou serviços são adequados ao mercado do 

outro país

» Faça um estudo de viabilidade, para saber o valor a ser investido e o retorno previsto

» Invista numa pesquisa de mercado » Faça uma análise Swot (análise de pontos fortes e fracos, fraquezas e oportunidades do negócio) 

» Com esses dados em mãos, faça um plano de negócios descrevendo em detalhes: prazos, plano de marketing e venda, necessidades financeiras para chegar ao ponto de equilíbrio

» Elabore uma plano de imigração

 

Fonte: Consultor Carlos Bartieri 

 

 

Fui lá e fiz!

Confira depoimentos de pessoas que decidiram abrir ou internacionalizar um empreendimento

 

Clientes brasileiros, empresa gringa

 

Com o uso de plataformas digitais, Marina Tajra, 33 anos, criou, em 2013, a Nova York e você, empresa especializada em assessoria ao turista brasileiro nos Estados Unidos, que vai desde traslado entre aeroporto e hotel até VIP tours. Há quase cinco anos, a piauiense de Teresina (PI) se mudou para o exterior. O esposo foi a trabalho, e ela o acompanhou. Marina é bacharel em direito, advogou durante seis anos no Brasil e sempre teve vontade de empreender. A ideia de abrir um negócio veio do desejo de não ficar sem emprego em Nova York.

 

“Pesquisei algumas maneiras de continuar trabalhando. A ideia que me pareceu interessante foi mostrar a brasileiros que vêm aqui os melhores pontos turísticos, restaurantes e, principalmente, segredos pouco explorado por quem não mora aqui.” De lá para cá, a empresa atendeu mais de 2 mil brasileiros. O negócio de Marina é conduzido somente por ela e, às vezes, conta com ajuda de duas pessoas. A empresária deixa uma dica para quem deseja abrir empreendimento lá fora: “Pesquise sobre o mercado local”, aconselha. 

 

Saiba mais

www.novayorkevoce.com / Instagram @novayorkevoce

 

 

Internacionalizando o negócio de família

 

Os negócios do Grupo Gaboardi, que opera com produtos de madeira e hotelaria, passaram de geração em geração e completou 50 anos em 2018. A empresa pertence a uma família de empresários e engenheiros. O curitibano Edson Gaboardi Júnior, graduado em engenharia mecânica com MBA em gestão empresarial, foi preparado desde cedo para assumir as empresas da família. Atualmente, o grupo tem nove firmas, sendo oito em solo brasileiro e uma nos EUA. Há quase um ano, Edson e a esposa se mudaram para Athens, em Ohio. O casal agora tem uma filha que nasceu lá. Em solo americano, eles internacionalizaram a empresa que conta com a ajuda de seis funcionários. O desejo de levar o negócio para o exterior veio com o tempo. “Frequento os Estados Unidos há muitos anos, até morei por dois anos aqui antes, então, sempre me chamou a atenção o potencial do país para os negócios”, explica.

 

“Sempre analisei se teríamos uma chance de explorar o mercado madeireiro daqui com nossos produtos. Agora estou trabalhando para tornar isso uma realidade”, conta. O que motivou o empresário a se mudar para o exterior foi a instabilidade da economia brasileira. 

 

Saiba mais

www.gaboardi.com.br

 

 

De Brasília à Flórida

 

Melissa Oliveira, 42, se mudou, em 2016, para Boca Raton, na Flórida. Formada em administração de empresas com especialização em gestão de pessoas e em gestão de projetos, a brasiliense trabalhou por 10 anos na Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap), na área de gestão de pessoas. Mas ela sempre teve o desejo de empreender. Então, em 2013, abriu um negócio na área de beleza, uma esmalteria de luxo na Asa Norte. O negócio não deu certo devido aos altos custos envolvidos. Com a mudança de país, devido a crise e em busca de oportunidades, Melissa teve a ideia de abrir a UsaExpress Serviços de Redirecionamento, que faz compras e envios de mercadorias ao Brasil, e conta com a ajuda de uma pessoa no trabalho. Foi uma forma de aumentar a renda familiar e se manter ativa. “A partir de várias solicitações de amigos e familiares no Brasil para que eu fizesse compras e enviasse as mercadorias, vi a oportunidade de um negócio e comecei a pesquisar sobre serviços de redirecionamento”, recorda.

 

A UsaExpress funciona como intermediária entre lojas nos EUA e clientes brasileiros que fazem compras por sites americanos. “Ao comprar, o cliente envia o produto para o endereço da UsaExpress localizado em Boca Raton, onde reembalamos e enviamos ao Brasil, com a melhor opção de frete. A vantagem do redirecionamento é a compra de produtos originais em lojas que o cliente não tem acesso no Brasil”, explica. Um dos obstáculos enfrentados é a instabilidade do dólar. “Ao fazer a compra com cartão de crédito, o cliente não sabe de quanto será a fatura, e isso é complicado. Outra dificuldade é conquistar o cliente a distância”, afirma. A dica que Melissa deixa para outras pessoas que pensem em empreender fora do Brasil é pesquisar sobre o mercado em que está entrando. “Estude bastante sobre a cultura e a legislação do país, pois nem sempre o que dá certo no Brasil dará no exterior”, aconselha. 

 

Saiba mais

Instagram @usaexpressusa 

 

Brasileiros pelo mundo 

Estimativas populacionais das comunidades tupiniquins fora do Brasil

 

Distribuição por continente:

África  25.387

América Central e Caribe  5.046

América do Norte  1.467.000

América do Sul  553.040

Ásia 191.967

Europa  750.983

Oceania 47.310

Oriente Médio 47.522

Total:  3.083.255

 

Distribuição por país:

Estados Unidos 1.410.000

Paraguai  332.042

Japão  170.229

Reino Unido  120.000

Portugal 116.271

Espanha  86.691

Alemanha 85.272

Suíça  81.000

Itália  72.000

França 70.000

Bélgica  48.000

Argentina 46.870

Canadá  43.000

Guiana Francesa  40.550

 

Fonte: Ministério das Relações 

Exteriores (Itamaraty); dados de 2015/2016. 

 

* Estagiária sob a supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa

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