Boston tem mais brasileiros, mas redução no atendimento consular

August 8, 2019

Integrantes da maior colônia brasileira nos EUA enfrentam dificuldades quando procuram serviços ou precisam de documentos.

 

Pedestres caminham pelo centro de Boston, cidade que reúne a maior colônia de brasileiros - Foto: Kelvin Ma / Bloomberg

 

Por Henrique Gomes Batista

 

 

SÃO PAULO - Katia* não acreditou quando conseguiu o visto americano de turista. Autônoma, estipulara a chegada a Boston por avião como condição para tentar a sorte nos Estados Unidos — ela não queria cruzar a fronteira com coiotes. Aos 53 anos, a ex-enfermeira de São Paulo, convencida por amigos, comprou a passagem e foi para Massachusetts em meados de julho. Mas, sem planejamento e conhecimento, o sonho durou uma semana. Após ficar desabrigada na cidade americana, contou com a ajuda de uma das muitas ONGs de brasileiros na cidade e desistiu, voltando ao Brasil.

 

— Precisei ir a um abrigo, nunca tinha passado por isso. Aqui a vida é mais difícil. Tentei ligar para o consulado, mas não há telefone, eles têm apenas um número de Whatsapp — disse ela quando voltava ao Brasil.

 

Ao mesmo tempo em que vê uma nova leva de imigrantes brasileiros — muitos sem visto — chegar aos Estados Unidos, o Consulado de Brasil em Boston apresenta dificuldades em dar assistência ao contingente. A representação diplomática na cidade — que reúne a maior colônia de brasileiros nos EUA, estimada de 450 mil pessoas (mais que a população de Santos) — reduziu atividades e apresenta filas para marcar serviços básicos.

 

Mais problemas no inverno

 

Entidades que atendem a estes brasileiros falam em “caos”, e temem por graves problemas no inverno, quando os empregos na construção civil rareiam com a chegada do frio e da neve.

 

— Depois da leva de profissionais liberais, vimos uma alta novamente de pessoas que estão chegando desesperadas, sem informações. Nosso estoque de alimento não perecível aos necessitados, que durava seis meses, agora não está durando um mês — diz Liliane Costa, diretora do Brazilian American Center (Brace) em Framingham (Massachusetts).

 

Liliane conta que, em junho do ano passado, ajudou duas famílias de brasileiros. No mesmo mês deste ano, foram 14. Lídia Souza, presidente do conselho do Consulado de Boston, afirma que a situação piorou muito neste ano, quando o consulado sofreu a baixa de alguns funcionários e passou a reduzir seu horário de atendimento em três horas diárias. E reclama da falta de telefone para contatar a representação, pois há só um número para envio de mensagens no WhatsApp — que pode ser respondido em até três dias —, além do telefone de emergência, em caso de prisão, morte ou acidente:

 

— Em seis meses, o consulado virou o caos. A demanda está cada vez mais alta, e eles não estão dando conta. Hoje, se precisarmos de um documento simples, só será obtido agendamento com mais de dois meses de espera.

 

O Itamaraty afirma que a redução do tempo de atendimento no consulado de Boston melhorou a eficiência do órgão. “O tempo de expediente interno é dedicado, entre outras atividades, ao processamento de pedidos por correio. Com esses ajustes, o número de documentos emitidos pôde ser aumentado, haja vista a maior eficiência obtida”, afirmou o ministério em resposta por e-mail ao GLOBO. A pasta informou, ainda, que os canais de contato — WhatsApp e e-mail — são adequados e que o telefone não era útil, pois não atendia a maior parte dos pedidos.

 

Os demais consulados que responderam ao pedido de entrevista do GLOBO confirmam este aumento de demanda, que pode significar uma alta da imigração aos EUA, mas não reduziram horários. “Houve um aumento significativo e repentino do fluxo de pessoas em busca de serviços consulares desde o final de 2018. A nova situação causou inúmeros transtornos ao atendimento consular”, afirmou a representação brasileira em Hartford, Connecticut.

 

Já o consulado em Nova York informou que, nos primeiros seis meses de 2019, foram expedidas quatro mil procurações, contra 7,7 mil em todo o ano de 2018. O consulado de Washington registrou também uma alta de Autorizações de Retorno ao Brasil, quando há pedido de deportação de brasileiros.

 

O Itamaraty vê sinais do aumento da população brasileira nos EUA. A pasta estima em 1,6 milhão o número de brasileiros que vive no país, contingente maior que os habitantes da nona cidade mais populosa do país, Recife.

 

“Os consulados brasileiros nos EUA vêm relatando o aumento no número de brasileiros vivendo naquele país”, afirmou. “Por exemplo, no ano de 2014, os dez Consulados-Gerais do Brasil nos EUA emitiram 77.614 documentos de viagem. Em 2018, foram 111.363 (aumento de 30%)”.

 

Até a imigração de pessoas com maior poder aquisitivo está em alta. Segundo Jorge Botrel, sócio da JBJ Partners, consultoria para expatriação de brasileiros nos EUA, o número de pessoas que o procura em Miami cresceu 50% neste ano.

 

— Os dados comprovam isso. O pedido de Saída Definitiva do Brasil da Receita Federal foi de 21.873 até o dia 2 de agosto, valor quase semelhante a todo 2018, quando foram 22.538 declarações. Este movimento é crescente e não dá sinais de queda — disse ele.

 

BRASILEIROS NOS EUA

 

 

Tornozeleira eletrônica

 

Mas a alta é mais sentida entre os “sem visto”:

 

— Da minha cidade em Minas acho que só vai sobrar o prefeito e o padre — afirmou Pedro*, que chegou aos EUA em abril. — A vida tava muito ruim no Brasil. Ganhava R$ 1,5 mil por mês. Aqui, com tornozeleira eletrônica da imigração, tiro US$ 500 por semana.

 

Ele contratou um coiote que fez a travessia com ele pelo México. Assim que entrou por terra próximo a El Paso, no Texas, a polícia o deteve com mulher e dois filhos. Eles não haviam caminhado nem 15 metros nos EUA. Após dois dias detidos, foram liberados com tornozeleiras eletrônicas. Partiram para Boston, onde vivem com sua irmã.

 

— Ter parente aqui ajuda muito. Mas tenho fé que em mais quatro meses eles tiram a minha tornozeleira e em um ano eu consiga uma autorização para trabalho. Estou pedindo refúgio, fugindo da crise, da fome e da violência no Brasil.

 

*Nomes fictícios a pedido dos entrevistados

 

Clique aqui para ver a matéria original.

 

 

 

 

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