Mudança de 21,8 mil brasileiros para o exterior até julho supera quase toda a saída em 2018

Descrédito no Brasil, violência e desejo de futuro melhor para os filhos são alguns dos principais motivos que estão levando famílias com recursos para investir lá fora a deixar definitivamente o país.

Com o desejo de dar melhor futuro aos filhos, Carol e Mathias, que estudou na Califórnia, Paola e o marido, Roberto, venderam lavanderia para se mudar (foto: Arquivo Pessoal)

Os brasileiros estão indo de mala e cuia para o exterior. Dispara o número de declarações de saída definitiva do país entregues à Receita Federal, indicando o aumento da expatriação. Nos primeiros sete meses do ano, documentos registrados na instituição somavam 94% do total de declarações registradas em todo o ano passado, que já havia sido recorde, com 23.149 comunicados. Neste ano, a expectativa é de que essa quantidade seja superada, pois até 28 de julho haviam sido apresentados 21.873 documentos.

A onda migratória de brasileiros vem tomando corpo desde 2016, quando a crise política e econômica se agravou e houve o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Enquanto em 2015, 14.920 deixaram o país em definitivo, no ano seguinte, esse contingente subiu 41%, chegando a 21.040. O levantamento mostra também que, de 2011 a 2018, houve um aumento de 183% nas declarações, que passaram 8.170, em 2011, para 23.149.

A comunicação de saída definitiva à Receita Federal é obrigatória a todo contribuinte que se mudar do país definitivamente ou àqueles que ficam mais de um ano fora. A empreendedora e coaching de negócios Paola Tucunduva, de 51 anos, entregou em janeiro à Receita Federal a documentação. Ela e a família se mudaram no início de 2018 para Sunny Island, na Flórida, nos Estados Unidos. E a intenção é ficar, sem pensar em voltar ao Brasil.

“Decidimos fazer uma mudança planejada para trazer para os filhos a perspectiva de viver num país com economia mais estável”, conta. O primogênito, Mathias, de 21, chegou antes, para fazer faculdade na Califórnia e motivou a guinada na vida da família. Paola e o marido, Roberto, que é advogado, venderam uma lavanderia industrial em São Paulo e redirecionaram os investimentos para os EUA, o que fez com que eles aplicassem para uma categoria de visto específica para investidores, o EB-5.

“A gente adora desafio. Isso mobiliza e motiva a gente. A sensação de segurança e a estabilidade econômica são pontos fortes. É um desafio de começar do zero num país diferente. Nossa experiência de vida ajuda a acelerar o processo. Mas, para recomeçar, tem que ter muita humildade”, avalia. Ela recomenda cautela e planejamento para quem quer emigrar. “Às vezes, você acha que vai ter sucesso, mas o mercado é muito diferente, com muito mais concorrência”, diz Paola. O Departamento de Estado do governo norte-americano aponta aumento de 27% na concessão de vistos para emigrantes brasileiros, passando de 3.502, em 2017, para 4.458, em 2018.

(foto: ARTES/EM)

MENTES BRILHANTES A Receita se atém ao recebimento do documento e análise das questões tributárias e não conta com detalhamento dos países nem se aprofunda nas motivações para a partida. Quem trabalha com expatriação percebe que o movimento é crescente entre famílias, nas quais os pais têm formação de nível superior e os filhos estão em idade escolar. São emigrantes com alta qualificação e perfil empreendedor que saem do país em busca de segurança e estabilidade.

A pesquisa é da consultoria especializada em expatriação JBJ Partners, feita no ano passado com brasileiros que moram nos Estados Unidos indica mudança no perfil. “As pessoas estão desesperançosas no Brasil e isso não vem de hoje. É um movimento que se sente desde 2014”, afirma o especialista em imigração da JBJ Jorge Botrel. “São pessoas brilhantes que poderiam estar produzindo no Brasil e ajudando o país a evoluir que estão indo para outro país. O lado positivo é que acabam mantendo o vínculo de negócios com o Brasil”, destaca.

Segundo o levantamento, a violência foi o motivo mais mencionado(56%) que as levou a mudar de país entre quem chegou a partir de 2014 nos Estados Unidos (EUA). Na sequência, aparecem instabilidade política e corrupção (47%), instabilidade econômica (45%) e baixa qualidade de vida em geral (45%). Minas Gerais foi o estado com maior crescimento de emigrantes, passando a corresponder à fatia de 10% dos brasileiros no exterior. Antes de 2013, os mineiros correspondiam a 7%.